Não há castelinho, nem lenda
sobre um rei que lá tivesse vivido. Mas de lá se vê o céu, se vê a terra, ao
longe (mas não muito longe) o mar.
Bray.
Cidade costeira situada a cerca
de 20 km a Sul de Dublin, onde o escritor James Joyce passou parte da infância.
Depois de ter ouvido duas ou três
pessoas elogiarem a região, eu e uma colega de trabalho decidimos vê-la com os
nossos próprios olhos antes que o advento das chuvas irlandesas impossibilitem passeios
regulares. Apanhámos o comboio e cerca de 45 minutos depois chegámos à estação
de Bray, que não fica longe da praia. Para lá nos dirigimos, para encontrarmos
muitas pessoas a gozarem do passeio à beira mar.
O dia não podia ser mais cúmplice
da nossa curiosidade estrangeira: o frio e o vento não chegaram para anular o
conforto do céu limpo, de um azul que me enche sempre de uma alegria difícil de
explicar. Quando falo de frio refiro-me a cerca de 8 graus Celsius, o que, na
minha referência portuguesa, está mais para Inverno do que para Outono.
Claramente nós, Portugueses, somos uns mimados quanto ao clima.
A praia era bonita, rochosa, com
mais pedras do que areia. O mar plácido, com tonalidades azuis esverdeadas. Várias
famílias com crianças e cães a tentar caçar gaivotas. A felicidade que os cães
demonstram quando podem correr à solta e brincar com os donos parece-me tão
pura, tão ingénua, tão cheia de infância, que uma pessoa que não sorria
distraidamente ao vê-los deve já ter perdido todo o contacto com estas
realidades internas.
Da praia avistava-se um monte ou
montanha (quem perceba de geologia que me diga se há diferença) e descobrimos
que havia um trilho delineado para subir ao topo. Gostava de lhe chamar
montanha, no entanto, para condizer melhor com a canção, e porque montanha me
soa a algo maior e assim posso gabar-me mais da nossa façanha pedestre.
Montanha será, doravante.
Depressa percebi que, quando
parti de Dublin, eu não sabia ao que ia. Se soubesse que ia numa expedição
montanha acima tinha levado a minha mochila com provisões. Assim, tive de
fazer-me ao caminho apenas com a bolsa da minha máquina fotográfica com o
essencial, o que não incluía água ou comida.
(Quem me conhece, sabe que andar
alguns poucos quilómetros com fome e sede não é bem o meu forte, e que me
queixei um bocadinho da minha falta de previdência à vinda para baixo.)
O percurso montanha acima era
pelo meio do bosque. Literalmente. Havia uns trilhos humanos, mas pouco
definidos. Tínhamos de ter atenção ao sítio onde colocávamos os pés, porque
seguíamos por entre raízes, rochas e folhas húmidas, e por vezes em terreno
bastante inclinado. Havia muitas amoreiras ao longo do caminho (e sim, à vinda
para baixo socorri-me das amoras silvestres, que eram bem boas, por sinal). O
cheiro da terra húmida, fetos, bosque cerrado. Por vezes, chegávamos a uns
patamares mais abertos de onde já se tinha uma vista muito bonita e depois
embrenhávamo-nos novamente no bosque. A dada altura, senti-me n’O Senhor do
Anéis, prestes a chegar ao Shire.
O topo da montanha era feito de
rocha e arbustos. De lá a vista era lindíssima! Sobre o mar, a cidade, e os
terrenos circundantes. O azul e o verde em harmonia natural.
Ao descermos a montanha, encontrámos
uma saída: um portão fechado a cadeado. Apesar de eu já só pensar em comer,
concordámos que se calhar não era de bom-tom trepar ao portão, não fosse ilegal
ou algo assim, e decidimos procurar outra saída. Pouco tínhamos andado bosque
adentro quando vimos um Golden Retriever a correr na nossa direcção todo
entusiasmado. Seguiam-no um casal com uma filha pré-adolescente. Perguntei se
conheciam a saída e indicaram-nos o dito portão: “é mesmo para saltar!”,
disseram-nos. Recordei então que estou na Irlanda e não na Alemanha ou assim.
Parece que o facto de um portão estar fechado a cadeado não é motivo para que
não se o transponha. Parece também que as pessoas são de uma simpatia e
disponibilidade para ajudar louváveis: depois de nos perguntarem o que
estávamos a fazer na Irlanda e para onde queríamos ir no momento,
ofereceram-nos boleia! Até agora, todos os irlandeses com quem me cruzei são
extremamente prestáveis e simpáticos, não há dúvida.
Almoçámos por volta das quatro e
tal da tarde e regressámos a Dublin com muitas fotografias na bagagem digital.
