sábado, 30 de agosto de 2014

In the land of Samuel Beckett and Oscar Wilde: Paparocas, Religião e História

Hoje fui a um mercado que tem lugar todos os Sábados no edifício de uma associação (SuperNatural Food Market). O mercado é pequeno, maioritariamente constituído por produtores irlandeses. Três bancas de produtos hortícolas, uma de carne, uma de peixe, uma de queijos, e depois uma banca de produtos espanhóis e outra de produtos italianos. Quanto às frutas e legumes que eu buscava, voltei a achar que a variedade não era assim muita (mas também cheguei ao meio-dia a um mercado que abre às 9.30h, o que pode ter tido a sua influência…). Os produtos parecem melhores, no entanto; já provei os abrunhos que comprei e não eram maus.

Mas aquela sensação de entrar no mercado e cheirar bem… ainda não. Pode ser que encontre outro mercado que me surpreenda. Talvez que quando se tem a “praça” de Santarém, a “praça da fruta” das Caldas da Rainha, ou o Mercado de Alvalade como referências, e La Boqueria em Barcelona como boa surpresa, seja difícil ficarmos impressionados… Espero, contudo, que a sopinha que vou fazer com os legumes de hoje se revele mais saborosa que a última…

Conheci a italiana que estava a vender vários tipos de massas, molhos, azeite, vinagre… Deu vontade de comprar de tudo o que estava naquela banca! Acabei por comprar um molho pesto tradicional e a respectiva massa (aprendi que há uma “pasta” que vai tradicionalmente melhor com o molho pesto: trofie). Pois que já me regalei ao almoço com a recente descoberta gastronómica!

O melhor no mercado foi a simpatia das pessoas e o facto de, pelo menos nas bancas espanhola e italiana, darem a provar os produtos (pãozinho com azeite, rosquinha-de-que-desconheço-o-nome com pesto ou pasta de alcachofra, mel).

Cheguei mais tarde ao mercado porque pelo caminho encontrei uma Igreja Anglicana, onde entrei e me demorei a falar com um irlandês já velhote.

A Igreja Anglicana é uma das vertentes protestantes, fundada por Henrique VIII, Rei de Inglaterra, quando o Papa da altura não o deixou casar-se com quem lhe apetecia. O Rei estava então casado com a católica Catarina de Aragão e o Papa não achou por bem cancelar-lhe o casamento para que se pudesse casar com Ana Bolena. Ora, Henrique VIII – que antes tinha surgido como acérrimo defensor da fé católica, queimando livros Luteranos – não vai de modas: fundou a sua própria igreja, afirmando-se chefe supremo da mesma, não tendo assim quem lhe dissesse que não. Tinha ainda a vantagem de confiscar as propriedades que a Igreja Católica possuía em Inglaterra e de não ser nem carne nem peixe: não somos os radicais luteranos e muito menos calvinistas, ainda seguimos uma doutrina católica. Portanto, Henrique VIII protestou mais por motivos pessoais do que de integridade religiosa. Como sabemos, ele tornou-se um especialista em moldar a realidade à sua vontade, já que veio a livrar-se por ínvios meios de mais umas quantas esposas.

O resumo histórico serve para ilustrar as razões possíveis do “nascimento” de mais uma “Igreja”. Muitas vezes foram estando em causa motivos individuais, de poder, ou de controlo social (como os calvinistas a estabelecerem o trabalho e a austeridade como virtudes) e não questões de Fé. E cada “ramo” que se vai fundando vai sofrendo transformações: pelo que percebo, o Anglicanismo não tem exactamente as mesmas práticas no Reino Unido, Irlanda, Portugal, Estados Unidos ou Austrália. Uns aproximam-se mais dos católicos, outros nem tanto, etc. É uma salganhada cristã. Quando todos defendem o Deus uno e a existência de um só Messias! O que esteve sempre em causa foram os sistemas criados pelos homens (e a corrupção dos mesmos), e o que fez sentido num determinado momento histórico pode já não fazer actualmente, só que ninguém vai abdicar da sua verdade.

A mensagem de União de Jesus perdeu-se algures na interpretação de um livro a partir do qual cada facção extrai normas de conduta diferentes e atribui graus de importância diferentes a diferentes passagens. E depois cada facção quer estabelecer a sua interpretação como a universal. Isto a respeito apenas das não sei quantas religiões cristãs. Já para não falar de todas as religiões que existem no mundo que me parece que andam todas a dizer as mesmas coisas, mas com nomes diferentes. Têm os mesmos princípios gerais, os pormenores é que diferem e impossibilitam a união (os rituais e normas de conduta que servem o controlo social e, portanto, variam consoante as culturas). Todas satisfazem também as mesmas necessidades humanas.

Estou a alongar-me e a divagar, como é hábito.

A verdade é que fiquei confusa quando encontrei em Dublin duas igrejas anglicanas com nomes de santos: a de hoje, St. Stephen’s Church, e outra anteontem: St. Ann’s. Ora, o meu conhecimento era de que no protestantismo não havia o culto de santos. E também que os locais de culto, as “igrejas”, não eram como as “habituais” igrejas católicas, edifícios históricos, mas sim edifícios em que basta que haja um salão suficientemente espaçoso para a reunião dos fiéis. Mas parece que não é bem assim na Igreja Anglicana, pelo menos aqui.

Assim que entrei na Igreja, os Sr. Irlandês que estava como anfitrião cumprimentou-me e presenteou-me com um papel com dados sobre a Igreja. Quando estava de saída, o Sr. encetou uma conversa comigo e fiquei a saber que trabalhou na Trinity College como bioquímico e agora que está reformado vai tomando conta da igreja de vez em quando. Achei o facto delicioso. No ambiente ameno da conversa, decidi colocar a questão relativa aos santos e, a partir daí, obtive muito mais informações.

  1. A Igreja Anglicana tem alguns santos, embora não todos os da Igreja Católica. Contudo, não oram aos santos.
  2. Os locais de culto da Igreja Anglicana são igrejas como as católicas.
  3. A “população” anglicana é diminuta na Irlanda e, para algumas pessoas, dizer-se que se é anglicano é o mesmo que dizer-se que se é inglês, o que não é muito bem visto… Por isso, normalmente os anglicanos omitem o facto de o serem, se puderem.
  4. Esta paróquia recebe muitos católicos. Quando há culto/missa muitos católicos assistem nesta igreja (disse ele que só uma pequena parte é que difere da missa católica).
  5. Disse que há uma boa relação com várias paróquias católicas e que só alguns padres são mais fechados, não dando a comunhão a protestantes numa missa católica, por exemplo.

E vou acabar por aqui o que para muitos deve ter sido uma seca de reflexão/informação, e vou passar à segunda parte do meu dia. Não prometo que seja menos seca, porque envolve mais História… Mas os temas estavam enunciados no título…

Fui a uma exposição de entrada livre numa casa-museu que retrata as tais casas do período jorgiano, séc. XVIII/XIX (Georgian House Museum). Gostei muito! Aprendi alguns factos curiosos.

Estas casas eram ocupadas pela alta burguesia da época que normalmente detinha outra casa no campo e essa, a de campo, é que era considerada a residência principal, por vezes.

A exposição começa com um vídeo relatado na primeira pessoa por uma das senhoras que morou naquela casa no final do século XVIII e início do século XIX. Bom, obviamente que não houve invocação dos mortos, portanto era uma voz-off, um faz-de-conta em que a senhora comparava o tempo em que ali viveu com os recursos que temos actualmente. Ela era esposa de um abastado comerciante de vinhos.

A casa conta com 5 andares, incluindo a cave. Na verdade, o tipo de organização fez-me lembrar o que se vê na série Downton Abbey, mas numa escala muito mais pequena, já que estamos a falar de uma casa burguesa urbana, e não de uma propriedade da nobreza latifundiária britânica.

Na cave, encontrava-se a adega, a zona de limpezas (louça, roupa), a copa e cozinha, a despensa e o quarto da Governanta. Num patamar ainda abaixo da cave havia o quarto da criada que era pau para toda a obra (o plâncton lá do sítio).

A Governanta era uma pessoa de confiança da casa, cujo quarto estava decorado com os restos que a Senhora não queria nos outros quartos. Era ela que detinha as chaves da casa, incluindo da adega e da despensa, que estavam sempre trancadas. Era ela quem cozinhava, quem geria as contas da casa e supervisionava o trabalho de quaisquer outros empregados.

A criada preparava as diversas lareiras, fazia a limpeza da casa, incluindo lavar roupa, louça e despejar todos os penicos, e lavava e preparava os produtos alimentares que a Governanta iria cozinhar (e não, não sei se lavava as mãos entre uma tarefa e outra…).

À saída da cozinha, havia os sinos ligados às diferentes partes da casa de onde os senhores podiam chamar os empregados. Originalmente, não havia etiquetas junto a cada sino a designar a divisão da casa correspondente; cada sino tinha (e tem, eu ouvi!) um som distinto dos outros! Não fazia ideia! Eles sabiam onde tinham de dirigir-se pelo som!

No rés-do-chão, havia o hall de entrada onde colocavam obras de arte pesadas, porque a segurança era um problema. Ao lado, a sala de jantar, ampla. No fim do jantar, as senhoras passavam para outra sala no segundo andar, enquanto os senhores permaneciam na sala de jantar, para o vinho do Porto e os cigarros, e também para usarem mais à vontade os penicos. Sim, os penicos. Fiquei boquiaberta! Tinham uns penicos que, depois de usados, eram colocados nuns móveis tipo mesa-de-cabeceira, com uma portinhola. É estranho pensar que não existia casa de banho.

No primeiro andar, duas salas: a tal para a qual as senhoras se retiravam após o jantar, ampla, destinada a diversões, dava para dançar lá; e uma outra que dava para as traseiras, mais pequena, reservada a momentos mais íntimos em família, com instrumentos musicais, normalmente piano, e uma mesa para jogar às cartas; com cadeiras, canapé, estante com livros. Em certas alturas, as crianças juntavam-se ao serão dos adultos para mostrar dotes musicais, participar em jogos de adivinhas, ou ler para os demais.
No segundo andar, o quarto de dormir, com uma pequena divisória que seria usada para arrumações ou como quarto para o senhor se vestir; e o quarto de vestir da senhora, vulgo “Boudoir”.

Aqui a decoração era menos rica, porque eram zonas da casa não destinadas a convidados. A cama de dossel (para proteger contra correntes de ar) era muito alta e havia uns degraus em madeira para se subir para lá (origem da expressão “climbing into bed”?). Havia também uma estrutura em madeira com um penico incorporado, uma retrete a ser usada pelo senhor e esvaziada pela criada.

Diariamente, os senhores lavavam as mãos, os pés e a cara, numa bacia portátil. O banho total era bem menos frequente e levava-se uma banheira para o quarto para esse efeito.

No boudoir, a senhora usaria a sua retrete, vestia-se com a ajuda de uma criada (Lady’s maid), depois tomava o pequeno-almoço e respondia a correspondência. Tudo isto enquanto as crianças eram preparadas e aprendiam as lições escolares do dia com a Perceptora, no terceiro andar.
Ali encontrava-se o quarto da perceptora, os das crianças e o quarto de brincar.

A perceptora tinha um bom quarto. Normalmente era alguém sem fortuna pessoal, mas que não pertenceria a um extrato social muito baixo. Ensinava geografia, inglês, história, música, uma língua europeia (normalmente francês) e bordados. Em pequenos, os rapazes também aprendiam a bordar, por se acreditar que era uma actividade que desenvolvia a disciplina. Um pouco mais velhos, os rapazes continuavam a sua educação em escolas privadas e depois em universidades, enquanto as raparigas só bem mais tarde iam para as chamadas “finishing schools”.

As perceptoras que chegavam a uma certa idade e não conseguiam casar eram mal vistas e eram dispensadas. Aqui em Dublin chegou a fundar-se um centro de acolhimento para essas perceptoras.

E assim chego ao fim do relato de hoje. Talvez o próximo seja menos educativo e mais divertido. Ou não.


(To be continued…)

St. Stepens's Church, Dublin


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

In the land of Samuel Beckett and Oscar Wilde: Nuvens, Verde e Sorrisos

Manhã do terceiro dia após chegada a Dublin. As impressões são fundamentalmente do centro da cidade, que ainda não houve tempo nem pernas para ver mais. Já percebi que vou andar muito a pé aqui: os transportes são caros, à excepção da rede de bicicletas que ainda não me atrevo a experimentar por ser o trânsito feito ao contrário do que estou habituada.

Dizer que em Dublin está sempre a chover é um exagero. Em rigor, está quase sempre “a modos que para chover”, o que não é a mesma coisa. Céu branco de nuvens. Para já – mas ainda estamos no Verão, é certo – as chuvas não foram fortes; foi raro precisar de abrir o chapéu-de-chuva, sobrevive-se com um impermeável com capuz. Hoje o começo do dia surpreendeu-me com um céu azul límpido, que não sei quanto tempo vai durar, mas que me fez sorrir logo pela manhã!

A contrastar com o habitual branco – e não cinzento – do céu, surge o verde das árvores. Há vários parques e árvores pelas ruas e até edifícios cobertos de flores e trepadeiras. Gosto muito. Este facto, conjugado com a organização urbana que não é feita em altura, fazem-me sentir numa intersecção de cidade e campo.

Aqui no centro da cidade é mantida a arquitectura do século XVIII (vide Georgian Dublin, Palladian architecture). Edifícios públicos (governamentais, universitários) inspirados nos templos greco-romanos, e casas com aquele tijolo entre o vermelho e o castanho, com portas amorosas, das quais gosto muito.

O campus da Trinity College é, simplesmente, a minha cara! É lindo, muito amplo, muito verde, cheio de história e de vida! Foi construída no século XVI, ainda no reinado da rainha Elisabeth I, senhora por quem nutro uma admiração especial. E eu vou poder trabalhar lá todos os dias! Acabaram-se as lágrimas à Segunda-feira.

Toda a gente com quem me tenho cruzado no comércio, serviços ou para pedir informações, tem sido muito simpática. No entanto, ainda não conheço ninguém de perto, pelo que não posso alongar-me sobre o assunto. Vêem-se muitas pessoas entre o louro e o ruivo, com olhos claros. Há, também, muitas pessoas de outros países, sobretudo jovens adultos.

O único supermercado a que fui impressionou-me negativamente quanto a fruta e legumes. Acho que hoje há um mercado… vou investigar…

Encontrar um quarto parece-me difícil. As rendas são muito elevadas. Os quartos mais baratos são partilhados com alguém ou então quartos individuais, mas em casas de família. Hoje tenho visitas agendadas, e ainda não perdi a esperança de encontrar um quarto individual, numa zona minimamente próxima e por um preço aceitável. Veremos!


(To be continued…)

Baggot St, Dublin. Os ditos tijolos.

Baggot St, Dublin. As ditas portas.

As ditas trepadeiras

Trinity College Dublin

Trinity College Dublin.