Hoje fui a um mercado que tem
lugar todos os Sábados no edifício de uma associação (SuperNatural Food Market).
O mercado é pequeno, maioritariamente constituído por produtores irlandeses. Três bancas de produtos hortícolas, uma de carne, uma de peixe, uma de queijos, e
depois uma banca de produtos espanhóis e outra de produtos italianos. Quanto às
frutas e legumes que eu buscava, voltei a achar que a variedade não era assim
muita (mas também cheguei ao meio-dia a um mercado que abre às 9.30h, o que
pode ter tido a sua influência…). Os produtos parecem melhores, no entanto; já
provei os abrunhos que comprei e não eram maus.
Mas aquela sensação de entrar no
mercado e cheirar bem… ainda não. Pode ser que encontre outro mercado que me
surpreenda. Talvez que quando se tem a “praça” de Santarém, a “praça da fruta”
das Caldas da Rainha, ou o Mercado de Alvalade como referências, e La Boqueria
em Barcelona como boa surpresa, seja difícil ficarmos impressionados… Espero,
contudo, que a sopinha que vou fazer com os legumes de hoje se revele mais
saborosa que a última…
Conheci a italiana que estava a
vender vários tipos de massas, molhos, azeite, vinagre… Deu vontade de comprar
de tudo o que estava naquela banca! Acabei por comprar um molho pesto
tradicional e a respectiva massa (aprendi que há uma “pasta” que vai tradicionalmente
melhor com o molho pesto: trofie). Pois que já me regalei ao almoço com a
recente descoberta gastronómica!
O melhor no mercado foi a simpatia
das pessoas e o facto de, pelo menos nas bancas espanhola e italiana, darem a
provar os produtos (pãozinho com azeite, rosquinha-de-que-desconheço-o-nome com
pesto ou pasta de alcachofra, mel).
Cheguei mais tarde ao mercado
porque pelo caminho encontrei uma Igreja Anglicana, onde entrei e me demorei a
falar com um irlandês já velhote.
A Igreja Anglicana é uma das
vertentes protestantes, fundada por Henrique VIII, Rei de Inglaterra, quando o
Papa da altura não o deixou casar-se com quem lhe apetecia. O Rei estava então
casado com a católica Catarina de Aragão e o Papa não achou por bem
cancelar-lhe o casamento para que se pudesse casar com Ana Bolena. Ora,
Henrique VIII – que antes tinha surgido como acérrimo defensor da fé católica,
queimando livros Luteranos – não vai de modas: fundou a sua própria igreja,
afirmando-se chefe supremo da mesma, não tendo assim quem lhe dissesse que não.
Tinha ainda a vantagem de confiscar as propriedades que a Igreja Católica
possuía em Inglaterra e de não ser nem carne nem peixe: não somos os radicais
luteranos e muito menos calvinistas, ainda seguimos uma doutrina católica.
Portanto, Henrique VIII protestou mais por motivos pessoais do que de
integridade religiosa. Como sabemos, ele tornou-se um especialista em moldar a
realidade à sua vontade, já que veio a livrar-se por ínvios meios de mais umas
quantas esposas.
O resumo histórico serve para
ilustrar as razões possíveis do “nascimento” de mais uma “Igreja”. Muitas vezes
foram estando em causa motivos individuais, de poder, ou de controlo social
(como os calvinistas a estabelecerem o trabalho e a austeridade como virtudes)
e não questões de Fé. E cada “ramo” que se vai fundando vai sofrendo
transformações: pelo que percebo, o Anglicanismo não tem exactamente as mesmas
práticas no Reino Unido, Irlanda, Portugal, Estados Unidos ou Austrália. Uns
aproximam-se mais dos católicos, outros nem tanto, etc. É uma salganhada
cristã. Quando todos defendem o Deus uno e a existência de um só Messias! O que
esteve sempre em causa foram os sistemas criados pelos homens (e a corrupção
dos mesmos), e o que fez sentido num determinado momento histórico pode já não
fazer actualmente, só que ninguém vai abdicar da sua verdade.
A mensagem de União de Jesus
perdeu-se algures na interpretação de um livro a partir do qual cada facção
extrai normas de conduta diferentes e atribui graus de importância diferentes a
diferentes passagens. E depois cada facção quer estabelecer a sua interpretação
como a universal. Isto a respeito apenas das não sei quantas religiões cristãs.
Já para não falar de todas as religiões que existem no mundo que me parece que
andam todas a dizer as mesmas coisas, mas com nomes diferentes. Têm os mesmos
princípios gerais, os pormenores é que diferem e impossibilitam a união (os
rituais e normas de conduta que servem o controlo social e, portanto, variam
consoante as culturas). Todas satisfazem também as mesmas necessidades humanas.
Estou a alongar-me e a divagar,
como é hábito.
A verdade é que fiquei confusa
quando encontrei em Dublin duas igrejas anglicanas com nomes de santos: a de
hoje, St. Stephen’s Church, e outra anteontem: St. Ann’s. Ora, o meu
conhecimento era de que no protestantismo não havia o culto de santos. E também
que os locais de culto, as “igrejas”, não eram como as “habituais” igrejas
católicas, edifícios históricos, mas sim edifícios em que basta que haja um
salão suficientemente espaçoso para a reunião dos fiéis. Mas parece que não é
bem assim na Igreja Anglicana, pelo menos aqui.
Assim que entrei na Igreja, os
Sr. Irlandês que estava como anfitrião cumprimentou-me e presenteou-me com um
papel com dados sobre a Igreja. Quando estava de saída, o Sr. encetou uma
conversa comigo e fiquei a saber que trabalhou na Trinity College como
bioquímico e agora que está reformado vai tomando conta da igreja de vez em
quando. Achei o facto delicioso. No ambiente ameno da conversa, decidi colocar
a questão relativa aos santos e, a partir daí, obtive muito mais informações.
- A Igreja Anglicana tem alguns santos, embora não todos os da Igreja Católica. Contudo, não oram aos santos.
- Os locais de culto da Igreja Anglicana são igrejas como as católicas.
- A “população” anglicana é diminuta na Irlanda e, para algumas pessoas, dizer-se que se é anglicano é o mesmo que dizer-se que se é inglês, o que não é muito bem visto… Por isso, normalmente os anglicanos omitem o facto de o serem, se puderem.
- Esta paróquia recebe muitos católicos. Quando há culto/missa muitos católicos assistem nesta igreja (disse ele que só uma pequena parte é que difere da missa católica).
- Disse que há uma boa relação com várias paróquias católicas e que só alguns padres são mais fechados, não dando a comunhão a protestantes numa missa católica, por exemplo.
E vou acabar por aqui o que para
muitos deve ter sido uma seca de reflexão/informação, e vou passar à segunda
parte do meu dia. Não prometo que seja menos seca, porque envolve mais
História… Mas os temas estavam enunciados no título…
Fui a uma exposição de entrada
livre numa casa-museu que retrata as tais casas do período jorgiano, séc.
XVIII/XIX (Georgian House Museum). Gostei muito! Aprendi alguns factos
curiosos.
Estas casas eram ocupadas pela
alta burguesia da época que normalmente detinha outra casa no campo e essa, a
de campo, é que era considerada a residência principal, por vezes.
A exposição começa com um vídeo
relatado na primeira pessoa por uma das senhoras que morou naquela casa no
final do século XVIII e início do século XIX. Bom, obviamente que não houve
invocação dos mortos, portanto era uma voz-off, um faz-de-conta em que a
senhora comparava o tempo em que ali viveu com os recursos que temos
actualmente. Ela era esposa de um abastado comerciante de vinhos.
A casa conta com 5 andares,
incluindo a cave. Na verdade, o tipo de organização fez-me lembrar o que se vê
na série Downton Abbey, mas numa escala muito mais pequena, já que estamos a
falar de uma casa burguesa urbana, e não de uma propriedade da nobreza
latifundiária britânica.
Na cave, encontrava-se a adega, a
zona de limpezas (louça, roupa), a copa e cozinha, a despensa e o quarto da
Governanta. Num patamar ainda abaixo da cave havia o quarto da criada que era
pau para toda a obra (o plâncton lá do sítio).
A Governanta era uma pessoa de
confiança da casa, cujo quarto estava decorado com os restos que a Senhora não
queria nos outros quartos. Era ela que detinha as chaves da casa, incluindo da
adega e da despensa, que estavam sempre trancadas. Era ela quem cozinhava, quem
geria as contas da casa e supervisionava o trabalho de quaisquer outros
empregados.
A criada preparava as diversas
lareiras, fazia a limpeza da casa, incluindo lavar roupa, louça e despejar
todos os penicos, e lavava e preparava os produtos alimentares que a Governanta
iria cozinhar (e não, não sei se lavava as mãos entre uma tarefa e outra…).
À saída da cozinha, havia os
sinos ligados às diferentes partes da casa de onde os senhores podiam chamar os
empregados. Originalmente, não havia etiquetas junto a cada sino a designar a
divisão da casa correspondente; cada sino tinha (e tem, eu ouvi!) um som
distinto dos outros! Não fazia ideia! Eles sabiam onde tinham de dirigir-se
pelo som!
No rés-do-chão, havia o hall de
entrada onde colocavam obras de arte pesadas, porque a segurança era um
problema. Ao lado, a sala de jantar, ampla. No fim do jantar, as senhoras
passavam para outra sala no segundo andar, enquanto os senhores permaneciam na
sala de jantar, para o vinho do Porto e os cigarros, e também para usarem mais
à vontade os penicos. Sim, os penicos. Fiquei boquiaberta! Tinham uns penicos
que, depois de usados, eram colocados nuns móveis tipo mesa-de-cabeceira, com
uma portinhola. É estranho pensar que não existia casa de banho.
No primeiro andar, duas salas: a
tal para a qual as senhoras se retiravam após o jantar, ampla, destinada a
diversões, dava para dançar lá; e uma outra que dava para as traseiras, mais
pequena, reservada a momentos mais íntimos em família, com instrumentos
musicais, normalmente piano, e uma mesa para jogar às cartas; com cadeiras,
canapé, estante com livros. Em certas alturas, as crianças juntavam-se ao serão
dos adultos para mostrar dotes musicais, participar em jogos de adivinhas, ou
ler para os demais.
No segundo andar, o quarto de
dormir, com uma pequena divisória que seria usada para arrumações ou como
quarto para o senhor se vestir; e o quarto de vestir da senhora, vulgo
“Boudoir”.
Aqui a decoração era menos rica,
porque eram zonas da casa não destinadas a convidados. A cama de dossel (para
proteger contra correntes de ar) era muito alta e havia uns degraus em madeira
para se subir para lá (origem da expressão “climbing into bed”?). Havia também
uma estrutura em madeira com um penico incorporado, uma retrete a ser usada
pelo senhor e esvaziada pela criada.
Diariamente, os senhores lavavam
as mãos, os pés e a cara, numa bacia portátil. O banho total era bem menos
frequente e levava-se uma banheira para o quarto para esse efeito.
No boudoir, a senhora usaria a
sua retrete, vestia-se com a ajuda de uma criada (Lady’s maid), depois tomava o
pequeno-almoço e respondia a correspondência. Tudo isto enquanto as crianças
eram preparadas e aprendiam as lições escolares do dia com a Perceptora, no
terceiro andar.
Ali encontrava-se o quarto da
perceptora, os das crianças e o quarto de brincar.
A perceptora tinha um bom quarto.
Normalmente era alguém sem fortuna pessoal, mas que não pertenceria a um
extrato social muito baixo. Ensinava geografia, inglês, história, música, uma
língua europeia (normalmente francês) e bordados. Em pequenos, os rapazes
também aprendiam a bordar, por se acreditar que era uma actividade que
desenvolvia a disciplina. Um pouco mais velhos, os rapazes continuavam a sua
educação em escolas privadas e depois em universidades, enquanto as raparigas
só bem mais tarde iam para as chamadas “finishing schools”.
As perceptoras que chegavam a uma
certa idade e não conseguiam casar eram mal vistas e eram dispensadas. Aqui em
Dublin chegou a fundar-se um centro de acolhimento para essas perceptoras.
E assim chego ao fim do relato de
hoje. Talvez o próximo seja menos educativo e mais divertido. Ou não.
(To be continued…)
| St. Stepens's Church, Dublin |